segunda-feira, 26 de julho de 2010

O problema das alergias - Dr. Carlos Gonzalez

O Dr. Carlos Gonzalez é um fantástico pediatra Espanhol, conhecido mundialmente pelo trabalho desenvolvido. Este excerto é tirado do livro "Mi niño no me come". Recomendo vivamente este autor e um outro livro que se intitula de "Besame mucho". Foi pena eu só ter lido este texto quando ela fez 6 meses e não aos 2 meses…

"O problema das alergias

Outra razão para uma criança se recusar a comer é que determinados alimentos a fazem sentir-se mal. A alergia alimentar pode ser perigosa. A experiência de Isabel mostra-nos que a dificuldade em reconhecer os primeiros sintomas pode levar ao desmame precoce e também ao agravamento do problema:

"Eu sou mãe de uma bebé de 7 meses que era amamentada até agora. No começo, tudo estava a correr muito bem e se dependesse de mim ela seria amamentada por muito mais tempo. Parecia que ela queria o leite que fluía rápido, mas mamava 5 minutos e começava a chorar. Amamentar passou a ficar muito difícil nos últimos três meses. Mas eu tinha certeza de que era o melhor para ela e insistia na amamentação, até que eu não pude mais mantê-la. Decidi, então, por desmamá-la. Eu achava que a amamentação deveria ser prazeirosa para mãe e bebé, mas eu não podia ver mais a minha filha a sofrer em cada mamada. Quando eu introduzi o primeiro biberão de fórmula, fiquei assustada ao ver as manchas vermelhas que surgiram no seu rosto após cinco minutos. Eu tive que continuar a amamentar a minha filha por mais algum tempo enquanto o médico realizava alguns exames de alergia."

Os testes, como era esperado, deram positivos. Os sintomas que a filha de Isabel apresentava durante a amamentação eram uma clara indicação de uma alergia ainda não diagnosticada. Sem a percepção do que deveria ser feito, quando o diagnóstico foi confirmado, ninguém explicou a Isabel a razão do comportamento de sua filha durante a amamentação.

Muitas mães dizem que seus bebés "rejeitam o peito". Um bebé que mamava bem há alguns dias ou semanas, de repente passa a mamar por 5 minutos e então começa a chorar. Isto pode ser atribuído a duas causas diferentes:

A) Um bebé começa a mamar de forma feliz. Alimenta-se, ficando satisfeito, em cinco minutos ou menos, pára e fica saciado. Se a mãe achar que esse bebé precisa mamar pelo menos 10 minutos, ela achará que esse bebé não mamou o suficiente, e tentará amamentá-lo mais. O bebé vai ficando chateado por ser forçado a comer.

B) Um bebé começa a mamar mais ou menos feliz, mas mostra-se desconfortável, até que deixa o peito a chorar. Algumas mães dirão: "É como se o leite magoasse o seu estômago, então ele chora de dor." Uma excelente explicação para o que realmente está a acontecer.

A primeira situação é totalmente normal, e corresponde a uma diminuição na necessidade da alimentação que acontece à medida que a criança cresce (como explicarei mais tarde, ver "A crise dos 3 meses"). Não há nada a fazer, além de reconhecer que a criança está satisfeita e não insistir mais no peito. Se o bebé é forçado a mamar no peito, é bem provável que com o passar das semanas ele desenvolva alguma aversão ao peito e pode começar a chorar até mesmo antes de o peito ser oferecido, o que ficará mais difícil distinguir a situação A da B. Mas se pensar no passado, poderá ser capaz de se lembrar como as coisas começaram e descobrir que se trata de um caso como a situação "A".

Na segunda situação, está claro que a causa é alguma alergia ou intolerância a algum alimento ou medicamento que a mãe está ingerindo. E quase sempre o culpado é o leite de vaca, embora também possa ser peixe, ovos, soja, frutas cítricas ou outros alimentos. Isto foi o que aconteceu com a filha de Isabel. Se, naquele momento, Isabel tivesse eliminado todo leite de vaca da sua dieta, ela teria poupado muitas lágrimas e sofrimento, a reacção alérgica que sua filha teve com o primeiro biberão, o desnecessário desmame, e todas as dificuldades de alimentar um bebé alérgico com fórmulas hipoalergénicas (que além do alto custo, tem gosto terrível, o que faz o bebé recusá-las muitas vezes).

Porque a filha de Isabel choraria após 3 minutos no peito? Algumas proteínas do leite de vaca (assim como as proteínas de qualquer alimento que a mãe coma) podem passar para o leite. É claro que a quantidade é pequena e é raro que haja uma reacção generalizada, como as manchas vermelhas espalhadas pelo corpo, como aconteceu com o primeiro biberão. Geralmente, a reacção ocorre apenas onde há contacto: no esófago, no estômago e no intestino da criança. Em poucos minutos há uma inflamação e um desconforto nesses lugares. E a mãe não verá nada, mas a criança sentirá, porque dói!

Se seu filho apresentar sintomas parecidos com os da filha de Isabel e durante a amamentação começar a chorar, como se estivesse a doer (e especialmente se observar eczemas ou irritações na pele), deverá fazer um teste para a alergia ao leite de vaca. Para fazer isso, a mãe deve manter a amamentação e remover todo leite e derivados e todos os produtos que levam leite e derivados de sua dieta. Torne-se uma especialista em leitura de rótulos e elimine qualquer coisa que contenha leite na composição. Pães, algumas sobremesas, chocolates, e algumas comidas processadas, margarinas, etc.

Você terá que esperar de 7 a 10 dias sem comer ou beber qualquer produto com leite de vaca.
O resultado não será imediato; as proteínas do leite de vaca já foram encontradas no leite materno até 5 dias após ter cessado totalmente o consumo de leite na dieta da mãe. Não substitua o leite de vaca por leite de soja, uma vez que este é tão alergénico quanto o primeiro.

Se após 10 dias, os sintomas de seu filho não desapareceram, ele provavelmente não é alérgico ao leite de vaca ou é alérgico a outros alimentos também. Você pode tentar retirar da dieta peixe e ovos. Se os sintomas não estão melhorando e você não deseja perder muito tempo, elimine leite e derivados, ovos, peixe, soja, e qualquer outro alimento que você suspeite e depois adicione um de cada vez de volta à dieta. Algumas crianças são alérgicas a dois ou mais itens e eles só melhoram quando a mãe elimina todos da sua dieta ao mesmo tempo. Uma vez conheci um bebé que era alérgico ao leite de vaca e a pêssegos. A mãe notou que quando parou com o leite de vaca, mas começou a tomar suco de pêssegos, seu filho não melhorava.

Se os sintomas melhoraram após retirar leite de vaca e derivados da sua dieta, pode ter sido apenas coincidência. Reintroduza o leite de vaca para ver o que acontece. Mas não faça isso devagar, uma vez que os sintomas possam ser leves e você não perceberá. Beba dois copos de leite em um dia e se nada acontecer, seu filho não é alérgico ao leite. A melhoria foi coincidência e é melhor deixar isso para lá. Algumas vezes, algumas mães são advertidas a eliminarem leite e derivados de sua dieta, como se o leite de vaca fosse o culpado de todos os choros, eczemas, e narizes entupidos e a mãe perde meses ou anos sem beber nada de leite desnecessariamente.

Se após a reintrodução de leite de vaca, seu filho apresentar os mesmos sintomas, você tem a prova da alergia. Esteja pronta para amamentar o maior tempo possível, preferencialmente até 2 anos ou mais, e não dê ao seu filho nada de leite ou derivados. Se a criança é muito alérgica, e a menor quantidade através do leite materno já causa problema, dar leite directamente ao bebé, pode trazer reacções muito mais severas.

Nem todas as crianças alérgicas são tão sensíveis ao ponto de reagirem sempre a qualquer alimento que a mãe coma que leve leite de vaca ou outro alergeno. Para determinar a alergia é muito importante ser bastante restrita na fase inicial, para que se possa ter certeza. Mais tarde, talvez você poderá consumir alguns produtos sem que seu filho reaja negativamente. É possível que quanto maior o controle com que sua mãe faça da dieta, mais rápido a criança melhore da alergia, embora isso possa não acontecer sempre.

Se você acha que o leite de vaca e derivados estão afectando seu filho, converse com seu pediatra; ele poderá fazer outros testes para alergia. E não tente dar ao seu filho qualquer produto que contenha leite ou derivados até nova ordem. Avisar os membros da família e a criança pode facilitar. Crianças costumam melhorar da alergia ao leite de vaca, geralmente, por volta dos 18 meses, mas alguns casos de reintrodução dos lacticínios podem precisar de orientação médica, e algumas vezes serem feitas até em hospital."

Do livro My Child won´t eat, do Dr. Carlos González.

2 comentários:

  1. Realmente, este homem parece ser genial! E o texto parece mesmo escrito sobre a Melzinha...

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  2. A tua história lembrou-me muito da história da minha filha, exceto o refluxo. Ela sofria tanto a mamar e a beber do biberão, batia com os pés, contorcia-se. Também sempre achei os cocós dela estranhos, com um cheiro estranho, apesar de não ter experiência em cocós de recém nascidos, mas eu sabia que algo não estava bem, simplesmente sabia. Qd passámos para o leite de lata, porque ela começou a recusar o meu leite e eu acabei por perder, começou a vomitar em golfadas. Fomos imensas vezes às urgências, ninguem desconfiava de nada. A pediatra só dizia que eram paranóias de mãe de primeira viagem (por outras palavras), mas eu sabia... Até que em conversa com uma amiga alergologista ela disse logo " isso é alergia ao leite de vaca, manda fazer estas análises, mas tem cuidado que mesmo que venham negativas ela pode ser alérgica na mesma". Mas não, vieram com valores altíssimos! Nunca mais fui a essa pediatra, mudei logo. Com certeza devia lá ter ido "discutir" um pouco, mas nem vontade tive. Chorei muito, não pela alergia, mas por saber que a minha filha sofreu tanto e eu não a ajudei a tempo! Enfim...Começamos a ser seguidos em alergologia e eu fui rigorosa, mesmo muito rigorosa. Comer só da minha comida, nem nos avós eu deixava comer. Não foi fácil, principalmente porque a família não entendia e achava que eu era uma exagerada, não entendiam porque ela não podia comer isto ou aquilo ,quando todos os miúdos comiam, porque eu nem pão lhe dava, coitadinha da menina! Mas eu fui ao extremo, até pão fazia em casa, sabia lá eu quem o fazia! A verdade é que ao fim de um ano os valores tinham baixado para metade. A minha amiga tinha logo avisado que quanto mais tempo o organismo ficassem sem qualquer contacto com o elemento alérgico, mais rápido passaria a alergia. E assim foi! Agora tem 2 anos e já não é alérgica! Mas não foi fácil!

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