quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um texto interessante e esclarecedor sobre o Parto


Indução do Parto
Persiste a ideia, falsa, de que indução é igual a segurança, um processo controlado do princípio ao fim, sem riscos, sem surpresas, sem perigo. Para muitas mulheres que recorrem aos hospitais privados também significa poderem assegurar o «seu» médico durante o «seu» parto: por um lado, ficarão sujeitas a todos os efeitos secundários de um parto marcado, que muitas vezes desconhecem; mas, por outro, têm a segurança de que estará lá alguém de confiança para resolver os problemas que podem surgir quando se marca um parto sem um motivo médico.
Em segundo lugar, existem outras razões: por um lado, no fim da gravidez as mulheres estão cansadas, o peso dos pés a aumenta.
Em muitos casos, a indução é marcada para as 38 semanas, antes do tempo previsto, para que não haja o «perigo» de o trabalho de parto se iniciar «sozinho», longe da presença médica, longe do hospital, longe de imprevistos.
Mas importa avaliar os aspectos positivos e negativos em mulheres e nascituros saudáveis. De facto, com a indução artificial, o parto torna-se mais previsível: não há o risco de ir para a maternidade às quatro da manhã e para muitas mulheres isso é sinónimo de tranquilidade mas, por outro lado, forçar os corpos da mãe e do bebé a iniciar um processo complexo, antes de eles estarem preparados, aumenta a possibilidade de intervenção – mais ocitocina farmacológica, cesariana, forceps, ventosa, episiotomia –, tal como intensifica as contracções, logo a necessidade de anestesia.
Este conjunto de práticas que interagem e dependem umas das outras, muitas vezes num círculo vicioso, pode também aumentar a propensão para problemas respiratórios nos recém-nascidos e a consequente necessidade de estes permanecerem numa incubadora. Induzir o parto antes do tempo, sem razões médicas, torna tudo muito mais previsivel: é muito mais provável que seja um parto difícil para a mãe e para a criança. Mas claro que as maternidades têm recursos para resolver estas dificuldades e é essa a lógica que muitas vezes preside na gestão do nascimento: investir na resolução dos problemas em vez de investir na sua prevenção.
A ocitocina farmacológica é também muito utilizada para intensificar o trabalho de parto mesmo que ele tenha começado de modo espontâneo. Nalgumas ocasiões é utilizada por razões práticas, para apressar o processo, em maternidades com pouco espaço e com profissionais de saúde sobrecarregados de trabalho e de obrigações. Mas o problema é que, em muitos casos, as parturientes precisam mesmo da ocitocina artificial. Constritas a viver o processo de nascimento num ambiente e em condições que não o beneficiam, têm necessidade de «ajudas» externas que substituam as suas próprias capacidades. Inibida a produção de ocitocina natural, é necessário recorrer à ocitocina farmacológica. Assim, a indução, instrumento precioso em casos de patologias já previstas ou inesperadas, acaba por ser muitas vezes utilizada porque, realmente, os níveis de ocitocina da parturiente não são suficientes para que o processo decorra sozinho, para que as contracções sejam eficazes e a dilatação progrida.
Levar a casa para o hospitalA disciplina da fisiologia, universal e transcultural, e as novas investigações médicas sobre a ocitocina e sobre o conjunto de hormonas implicado no parto têm contribuído para uma melhor compreensão do processo de nascimento. E são muitas as maternidades do mundo que já integraram na sua prática estes conhecimentos recentes. Dão protagonismo às mulheres e criam condições hospitalares para que elas possam beneficiar dos recursos próprios do corpo humano, por um lado; e limitando os usos da ocitocina farmacológica e outras intervenções àqueles casos, excepcionais, em que elas são necessárias. Ambas as atitudes são inseparáveis: a intervenção só poderá ser reduzida se se criarem condições para que os mecanismos fisiológicos possam funcionar.
O serviço de obstetrícia de um hospital tem características únicas, diferentes de todas as outras secções de um hospital. A parturiente saudável não é uma doente. É uma mulher que vai ter um filho. A única razão que leva uma mulher saudável a ser internada num hospital requer necessariamente uma abordagem diferente da de outras áreas da medicina, que têm de estar mais centradas na patologia. A banalização da indução, em que a parturiente recebe ocitocina (às vezes sem ser informada) no mesmo «soro» que lhe limita os movimentos, tal como a imposição de dar à luz em posição supina com as pernas pousadas numas perneiras é uma das regras que exemplificam a projecção do comportamento do «doente» no comportamento das grávidas. Hoje, já são muitas as maternidades em todo o mundo que pensaram nestas questões e mudaram o seu espaço e o seu ambiente. Mas não é possível mudar mobílias sem antes mudar cabeças. E isso é, claro, muito mais difícil.
Um modelo de nascimento utilizado em muitos países e com resultados muito positivos é aquele que procura criar um espaço hospitalar o mais parecido possível com uma casa. Tendo em conta que o ambiente privado, íntimo e afectivo de casa facilita o processo de nascimento, este modelo procura reproduzir as mesmas condições num ambiente hospitalar. Assim, a parturiente pode viver o seu parto com muitas das vantagens de um parto em casa e com a possibilidade de todos os instrumentos e saber dos profissionais de saúde que acompanham todo o processo e só interferem em caso de necessidade. Os resultados deste modelo de nascimento são muito positivos, na satisfação das famílias que o vivem, e na diminuição da intervenção, com o que isso significa no bem-estar das pessoas envolvidas e na poupança de custos hospitalares.
Quando se criam condições para que o corpo humano possa produzir ocitocina, diminui drasticamente a necessidade de recorrer à ocitocina sintética, com todas as vantagens que isso significa para o bem-estar físico e emocional da mulher e para bom começo de vida para a criança que acaba de nascer.”
Revista Pais e Filhos

- O Hospital São João tem uma sala de parto especial, pensada para a mulher que pretende ter um filho da forma mais natural possível e num ambiente especial, mas não deixando de ter ajuda hospitalar, se necessário.

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