Um pouco de compreensão.
O bebé não está “chatinho” nem “pegajoso”. O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução era muito perigoso que o bebé estivesse longe da sua mãe e, se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. O desenvolvimento dos lóbulos frontais inibe naturalmente esse sistema e, como adultos, aprendemos a controlá-lo com distracções cognitivas.
Se você não está, como ele sabe que você não foi embora para sempre?
Não lhe pode explicar que vai voltar logo, porque os centros verbais do seu cérebro ainda não funcionam. Quando ele aprender a engatinhar, deixe-o segui-la por todas as partes. Sim, até ao banheiro. Livrar-se dele ou deixá-lo no parque não só é muito cruel, como também pode produzir efeitos adversos permanentes. Ele pode sentir pânico, o que significa um aumento importante e perigoso das substâncias stressantes no seu cérebro. Isso pode resultar numa hipersensibilização do seu sistema de medo, o que lhe afectará na sua vida adulta, causando fobias, obsessões ou comportamentos de isolamento temeroso. Pouco a pouco, ele vai sentir-se mais seguro da sua presença na casa, principalmente quando começar a falar.
A separação aflige as crianças tanto quanto a dor física.
Quando o bebé sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro activam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, tristemente, é isso o que fazem muitos pais. Não conseguem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.
As separações de curto prazo são prejudiciais.
Alguns estudos detectaram alterações a longo prazo do eixo HPA do cérebro infantil devido a separações curtas, quando a criança fica aos cuidados de uma pessoa desconhecida. Esse sistema de resposta ao stress é fundamental para nossa capacidade de enfrentar bem o stress na vida adulta. É muito vulnerável aos efeitos adversos do stress prematuro. Os estudos com mamíferos superiores revelam que os bebés separados de suas mães deixam de chorar para entrar num estado depressivo. Param de brincar com os amigos e ignoram os objectos do quarto. À hora de dormir há mais choro e agitação. Se a separação continuasse, o estado de auto-absorção do filho agravava-se e tal conduziria à letargia e a uma depressão mais profunda.
Pesquisas realizadas nos anos setenta demonstraram que alguns bebés cuidados por pessoas desconhecidas durante vários dias entravam num estado de luto e sofriam de um trauma que continuava a afligir-lhes anos depois. Os bebés estudados estavam sob os cuidados de adultos bem-intencionados ou em creches durante alguns dias. Os seus pais iam visitá-los, mas basicamente, estavam em mãos de adultos que eles não conheciam. Um menino que se viu separado da sua mãe durante onze dias deixou de comer, chorava sem parar e atirava-se ao chão desesperado. Passados seis anos, ele ainda estava ressentido com sua mãe. Os pesquisadores observaram a inúmeras crianças que haviam sido separadas de seus pais durante vários dias e se encontravam em estado de ansiedade permanente. Muitos passavam horas imóveis, olhando a porta pela qual havia saído sua mãe. Aquele estudo, em grande parte gravado em filme, mudou no mundo inteiro a atitude em relação às crianças que visitam suas mães no hospital.
Mas, não é bom o stress?
Algumas pessoas justificam a sua decisão de deixar o bebé desconsolado como uma forma de “inoculação de stress”. O que significa apresentar ao bebé situações moderadamente stressantes para que aprenda a lidar com a tensão. Aqueles que afirmam que, os bebés que choram por um prolongado período de tempo, só sofrem um stress moderado estão enganandos.
Tradução de um trecho do capítulo O Choro e as Separações do livro The Science of Parenting de Margot Sunderland. Esse livro foi premiado em 2007 pela Academia Britânica de Medicina como o melhor livro de medicina popular. Não é um simples livro de conselhos para pais, mas sim um livro que, baseado em mais de 800 experimentos científicos, explica o que a ciência nos diz sobre como os diferentes tipos de criação afectam os nossos filhos.

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